Tomemos uma goiabeira. Durante anos de sua fase madura, esta goiabeira produziu frutos deliciosos. Tão grandes quanto se pode esperar de uma árvore de quintal, mas muito mais suculentos e saudáveis. Mas depois de um período de pelo menos uns seis temporadas, aquela goiabeira não floresceu.
Ela que, entre abacateiros, amoreiras, pitangueiras e mangueiras fazia a alegria do quintal, das crianças e dos adultos da casa, não floresceu. Será que deu bicho? Será que está doente? Será que, depois de tanto tempo produzindo frutos tão maravilhosos, aquela árvore... se esgotou?
A família toda se consternou. As outras famílias do bairro, os amigos e vizinhos, todos preocupados. Será que algum dia aquela árvore curta de altura voltaria a dar frutos?
Esperou-se um tempo. Aquela temporada, sem flores, transcorreu longa e plena de ansiedade. O abacateiro despejou seus frutos e ninguém quis comê-los. Das pitangas não se fez suco, nenhuma compota de manga, as aves bicaram todas as amoras. Outra temporada, e mais uma vez, nada.
Um amigo sugeriu: "Corta fora! E depois espera, que do toco dessa daí nasce outra boa, você vai ver!" O dono ouviu calado. Não disse nem que sim nem que não, mas pensou no machado que tinha na garagem. Foi a vez de um vizinho: "Ô compadre, não corta não. Se nunca tivesse dado goiaba boa, aí você devia cortar sim, mas já deu, e deu por muito tempo! Se já aconteceu uma vez, pode acontecer de novo..." O dono ficou calado de novo. Pensou em outra vez as crianças empoleiradas nos galhos curtos, se esticando, com sorrisos e gritos, para alcançar os frutos doces. Daí chegou um terceiro e disse: "Deixa esse trem aí, uai! Se uma hora der goiaba de novo, beleza. Se não der, ainda dá sombra. É pouca mais dá."
Mas a verdade que nem o dono percebia, nem nenhum dos conselheiros, era que a goiabeira, nua de frutos, tinha virado uma cicatriz. Ali, logo na entrada da casa, no começo do quintal, a visão da goiabeira pelada lembrava um tempo ido, passado, e mais do que isso, lembrava como as coisas, as outras coisas todas tinham se tornado ruins hoje. Olhar a goiabeira improdutiva era lembrar que as coisas boas acabam. Era um memorial, um sacramento sorumbático: presença visível de algo que já se perdeu. Por isso, na garagem, o machado reluzia. Por isso aquele dia, chegado cansado do trabalho o dono se sentou, terno dobrado, gravata frouxa, de frente para a pequena árvore. Sabia que, se esperasse, poderia ser que a árvore de novo desse seus maravilhosos frutos, mas o preço disso era agüentar todo dia, ao cruzar o portão, o fato de que poderia ser nunca mais. Que aquela árvore, que tanta alegria já dera à casa, agora só servia para gerar sombra e ninhos de rolinhas, mesmo assim sem muita eficiência. Se escolhesse lhe passar o machado, cortava árvore e lembrança, aliviaria o peso do coração. Mas sempre carregaria a pergunta: "E se...?".
Não sei o que o dono da casa decidiu. A última vez que o vi, ele ainda estava lá, sentado, alguma lágrima nos olhos, o paletó dobrado sobre o braço esquerdo, a pasta do braço direito, a gravata frouxa. Sentado numa pedra baixa mas que, apesar disso, a pouca sombra da goiabeira não conseguia cobrir. Pensando em entrar para casa, pensando em dormir ali na terra, pensando na garagem. Vi tudo aquilo, e sem resposta, me deixei ficar ali um tempo. Acho que cochilei mesmo sentado numa das pedras. Quando despertei, me percebi, ainda sentado, o paletó na mão, a pasta na outra, a gravata pendendo frouxa. Não havia dono nenhum. Só eu e ela. A goiabeira.

2 Participações externas:
Iaê Lucas!
Que legal que tu gostou da indicação, eu ainda vou comprar o meu.
=)
abração!
Já que vc reclamou que passo por aqui e não comento nada... rsrsr
Adorei esse texto! Como sempre muito bem escrito... E com um quê de humano que é impossível não tocar as pessoas que o leem... [Bendita Experiência Elementar! rsrs]
Espero que a configuração desta cena mude... E breve! ;)
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