10 Março, 2010

O dilema da goiabeira

Tomemos uma goiabeira. Durante anos de sua fase madura, esta goiabeira produziu frutos deliciosos. Tão grandes quanto se pode esperar de uma árvore de quintal, mas muito mais suculentos e saudáveis. Mas depois de um período de pelo menos uns seis temporadas, aquela goiabeira não floresceu. 




Ela que, entre abacateiros, amoreiras, pitangueiras e mangueiras fazia a alegria do quintal, das crianças e dos adultos da casa, não floresceu. Será que deu bicho? Será que está doente? Será que, depois de tanto tempo produzindo frutos tão maravilhosos, aquela árvore... se esgotou?
A família toda se consternou. As outras famílias do bairro, os amigos e vizinhos, todos preocupados. Será que algum dia aquela árvore curta de altura voltaria a dar frutos?
Esperou-se um tempo. Aquela temporada, sem flores, transcorreu longa e plena de ansiedade. O abacateiro despejou seus frutos e ninguém quis comê-los. Das pitangas não se fez suco, nenhuma compota de manga, as aves bicaram todas as amoras. Outra temporada, e mais uma vez, nada. 
Um amigo sugeriu: "Corta fora! E depois espera, que do toco dessa daí nasce outra boa, você vai ver!" O dono ouviu calado. Não disse nem que sim nem que não, mas pensou no machado que tinha na garagem. Foi a vez de um vizinho: "Ô compadre, não corta não. Se nunca tivesse dado goiaba boa, aí você devia cortar sim, mas já deu, e deu por muito tempo! Se já aconteceu uma vez, pode acontecer de novo..." O dono ficou calado de novo. Pensou em outra vez as crianças empoleiradas nos galhos curtos, se esticando, com sorrisos e gritos, para alcançar os frutos doces. Daí chegou um terceiro e disse: "Deixa esse trem aí, uai! Se uma hora der goiaba de novo, beleza. Se não der, ainda dá sombra. É pouca mais dá."
Mas a verdade que nem o dono percebia, nem nenhum dos conselheiros, era que a goiabeira, nua de frutos, tinha virado uma cicatriz. Ali, logo na entrada da casa, no começo do quintal, a visão da goiabeira pelada lembrava um tempo ido, passado, e mais do que isso, lembrava como as coisas, as outras coisas todas tinham se tornado ruins hoje. Olhar a goiabeira improdutiva era lembrar que as coisas boas acabam. Era um memorial, um sacramento sorumbático: presença visível de algo que já se perdeu. Por isso, na garagem, o machado reluzia. Por isso aquele dia, chegado cansado do trabalho o dono se sentou, terno dobrado, gravata frouxa, de frente para a pequena árvore. Sabia que, se esperasse, poderia ser que a árvore de novo desse seus maravilhosos frutos, mas o preço disso era agüentar todo dia, ao cruzar o portão, o fato de que poderia ser nunca mais. Que aquela árvore, que tanta alegria já dera à casa, agora só servia para gerar sombra e ninhos de rolinhas, mesmo assim sem muita eficiência. Se escolhesse lhe passar o machado, cortava árvore e lembrança, aliviaria o peso do coração. Mas sempre carregaria a pergunta: "E se...?".

Não sei o que o dono da casa decidiu. A última vez que o vi, ele ainda estava lá, sentado, alguma lágrima nos olhos, o paletó dobrado sobre o braço esquerdo, a pasta do braço direito, a gravata frouxa. Sentado numa pedra baixa mas que, apesar disso, a pouca sombra da goiabeira não conseguia cobrir. Pensando em entrar para casa, pensando em dormir ali na terra, pensando na garagem. Vi tudo aquilo, e sem resposta, me deixei ficar ali um tempo. Acho que cochilei mesmo sentado numa das pedras. Quando despertei, me percebi, ainda sentado, o paletó na mão, a pasta na outra, a gravata pendendo frouxa. Não havia dono nenhum. Só eu e ela. A goiabeira.

2 Participações externas:

hellatoons.wordpress.com disse...

Iaê Lucas!

Que legal que tu gostou da indicação, eu ainda vou comprar o meu.

=)

abração!

talitakoy disse...

Já que vc reclamou que passo por aqui e não comento nada... rsrsr

Adorei esse texto! Como sempre muito bem escrito... E com um quê de humano que é impossível não tocar as pessoas que o leem... [Bendita Experiência Elementar! rsrs]

Espero que a configuração desta cena mude... E breve! ;)