01 Maio, 2010

Um vestido


Foram a shopping. 
Ao contrário do que tentam dizer todas as novelas, foram ao shopping por desejo (e necessidade) dele. Entre uma loja de calçados masculinos e outra, viram um vestido numa vitrine. Num mar de peças em roxo, púrpura e lilases, aquele vestido, bege claro, quase invisível, dotado de uma alça grega, chamou-lhes a atenção. Ela quis vesti-lo. Ele quis vê-la. Entraram na loja.
Vestindo-a, a peça ficou ainda mais linda. E, objeto de desejo, ainda mais cara. Ele quis comprar. Ela quis prudência. Juntos, pediram à vendedora um cartão. Saíram, sem o vestido.
Esquecidos os sapatos, ele só pensava no vestido. Sempre que a ocasião se dava, perguntava a ela sobre a peça. "Cara demais", era tudo o que ela respondia. Cara demais até para o dinheiro dele. Para ele, a beleza não tinha preço. Nunca teve. Nem forma fixa: durante semanas, a beleza teve a forma de um vestido bege, longo, de alça grega. E com os cabelos morenos dela, numa trança caída de lado, oposta à alça.

O tempo passou e ele se convenceu do não que ela lhe dera. Para aquela importante ocasião dele, o vestido não se apresentaria. Talvez nunca se apresentasse. Ele se conformou. Mesmo o aberrante cetim cor-de-rosa ficava bonito nela. Não tanto quanto aquele vestido bege, mas ficava. 
Quando enfim chegou o dia, ele se vestiu. Calçou aqueles sapatos, olhou-se um sem número de vezes no espelho. Acertou, milimetricamente, o penteado. Acertou a pressão do nó da gravata, um italiano simples. E saiu.
Dentro do salão, ela já o esperava. A música era baixa ainda, e a luz, clara como o dia. Ela vestia o vestido. De bege, fora mudado em preto, mais adequado ao evento noturno. A trança caia, como se o cabelo nascesse naquele formato, ao lado oposto da alça. 
A gratidão por aquele momento preencheu de tal forma a vida dele que, muitos anos depois, no leito de morte, ele balbuciou (e ninguém entendeu): "Era caro demais..." 

1 Participações externas:

Joana Cabral disse...

O objeto de desejo não conquistado é um vazio que podemos alimentar por muito tempo... quando vem mesclado com outro objeto de desejo torna-se uma obsessão!! Gostei!