10 Julho, 2010

Aos Guimarães: Um cartão postal


Ontem enquanto velávamos o corpo do Marcos, por muitas vezes fiquei ali do lado da vovó. Meio sem muito o que fazer, sem ter muito o que fazer. Me deixei ficar ali, como quem diz (dizendo) “estou aqui se precisar”. Eventualmente a vovó, tão calada, tão ensimesmada, disse uma ou outra palavra. A certa altura disse “É por isso que eu falo para vocês aproveitarem a vida, dentro dos limites. O Marcos não aproveitou. Não saia de casa, ficava lá na sala, lendo o jornal ou vendo televisão. Só.”

Não sou petulante o suficiente para discordar francamente da vovó. Digo isto porque, dos mais de quarenta anos de vida a dois que eles tiveram, eu muito mal presenciei vinte, vinte e poucos deles. Mas olhei em volta. Haviam muitas pessoas por ali. Muitas delas, inclusive, eu nunca antes vira na vida e, suponho, nunca mais vou voltar a ver. Apurei os ouvidos para saber o que aquelas pessoas murmuravam, diziam umas às outras. Foi quando um homem destes que eu nunca antes vira, falou, quase de si para si, que estava ali para enterrar o melhor amigo que já tivera. Uma outra senhora comentava o fato de que o Marcos sempre tinha café pronto às cinco horas, o café mais gostoso que ela já tinha experimentado, houvesse alguém para tomar com ele ou não. No canto, sentada desolada, incrédulo, uma senhora dizia à dona Santa que o Marcos nunca lhe deu nenhum trabalho, nenhum. Por fim, ainda na capela, a tia Márcia se pronunciou sobre como perdia um amigo. Na minha cabeça incomodava outra vez uma dúvida que já há muitos meses me incomodava: por que nunca chamamos o Marcos de “avô”? 

Somando todas essas coisas, percebi algumas outras. Primeiro, que mesmo com a carga triste que inevitavelmente tem, um velório é uma celebração da vida. É uma vida que termina sim, mas aqueles que ali estão, em volta do corpo morto, vazio, só estão lá porque tiveram muita vida compartilhada com aquele que se vai. Uma amizade sólida, um café (e um papo) sempre esperando, um cuidado e uma moral indiscutíveis. Cada uma daquelas pessoas estava ali para dizer, ao morto: “Você vai, e o que dói da sua ida são as histórias que não vão continuar.” Com tantas pessoas ali sofrendo a partida, é possível dizer que ele não aproveitou a vida? Ninguém faz amigos (e tantos) preso dentro de uma casa, lendo o jornal ou vendo a televisão: todos ali diziam que agora aproveitarão menos a vida com a ausência dele. E, coincidência ou não, este sábado dez de julho amanheceu mais cinza. É o primeiro dia.

Ainda restava a questão do avô. Nada posso dizer em nome dos meus primos todos. Mas levei a pergunta a Roberta, que disse que talvez a gente não o chamava assim por falta de costume. Porque ninguém nos ensinou a fazê-lo. E o assunto se perdeu. Se perdeu porque a Roberta começou a contar de vivências, de histórias e de expectativas que dividiu com o Marcos. Contou do respeito mútuo, do cuidado, da promessa de um dia, caso se casasse na igreja, de ter o prazer de entrar na nave de braços dados com ele. Enquanto ela dizia, olhei para mim mesmo: lembrei de tantas conversas, de tantos pedaços de queijo, de tantos jogos de futebol que vimos ali, sentados. E percebi que a gente nunca chamou o Marcos de avô. Só. Simplesmente nunca chamamos. Mas vou a um lugar-comum, uma frase até batida: uma rosa, com outro nome, teria menos perfume? Não, não teria. Se em tudo que fazia para mim, meus irmãos ou, ao que vi, à Roberta também, o Marcos era um avô, então ele era. Ele é. Nem que seja um avô honoris causa.

Para encerrar este texto-homenagem, retomo o princípio, e cito aqui a Bíblia, pedindo licença às concepções religiosas de cada um que porventura venha a ler este texto. Em Lucas, cap. 24, as mulheres choram, junto ao túmulo vazio de Jesus Cristo, o sumiço de seu corpo. Surgem dois anjos, que as interpelam sobre a razão do choro, com a pergunta: ”Por que vocês estão procurando entre os mortos aquele que está vivo?”. O texto bíblico refere-se, naturalmente, à ressurreição do Cristo. No nosso caso específico, me dou o direito de fazer uma leitura diferente do versículo. Se do Marcos temos tantas histórias pra contar, tantas memórias, tantas lembranças boas, por que dizemos que morreu? Não morreu se a memória vive em nós. Não morrerá. Por isso não procuremos entre os mortos aquele não morreu – nem pode morrer. Enterrado seu corpo, a vida do Marcos vive em nós. E isso não se apaga, a falta vai doer dia após dia. Mas só vivendo é que se sente dor...

4 Participações externas:

talitakoy disse...

Lindo o texto Lucas Ed.! Muito bonito!

Sinto muito pelo Marcos, seu avô! =/

Mas concordo que ele viverá para sempre nas muitas lembranças que vc e seus familiares possuem da convivência com ele.

E quando Jesus voltar, vocês se reencontrarão! =)

Rê Santos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rê Santos disse...

Não ir a velórios mêdo ou covardia?
Medo: ver alguém com quem até pouco tempo se convivia,deformado quase irreconhecível,totalmente imóvel.
Covardia: Acrescentar em nosso álbum memorial a foto daquele ser desfigurado,inerte e sem "vida", daquela pessoa tão gentil,educada chegando até ser doce, um pacato cidadão. Não encarar tudo isto me leva a concluir: é covardia. Será covardia não querer ter imagens tão chocantes em nossa memória, que insiste em preservá-lo vivo?

Fabrício Belmiro disse...

Eis aqui, meus amigos, o sucessor de Rubem Alves.
Nada mais a dizer...