Hoje eu vou falar para os facínoras. Aqueles sujeitos ruins que desde os tempos dos seriados de bang-bang aprendemos a chamar de vilões.
Mas não seja óbvio, não tenha uma imaginação tão pobre assim: o vilão não é aquele sujeito sisudo, um dos olhos vazados por uma horrível cicatriz, a barba mal feita. Bem vestido, o vilão até sorri. Inclusive, o vilão poderia ser eu ou você. Por isso eu comecei este texto pelo título de nós, os vilões.
Porque, na real, o vilão pode mesmo ser eu ou você. Pode até sermos nós dois. Uma história sem mocinhos. Porque o vilão é aquele cara que ri antes da hora que os outros acham que ele deveria rir. Que enquanto todos ainda pregam o luto, já está lá se levantando e batendo as mãos nos joelhos, para tirar o pó. O vilão é o sujeito que arriscou ser feliz no meio da mediocridade e covardia dos que não quiseram arriscar. Aquele sujeito que parece estar já muito bem quando ainda deveria estar muito mal. O vilão é aquele que, tendo sido informado do preço a se pagar, enfiou a mão no bolso e gastou as últimas moedas com o único objetivo de seguir em frente em paz. É importante lembrar que o vilão não foi quem estabeleceu o preço ou as condições do negócio: é só o primeiro a pagar. De um certo ponto de vista, o vilão é simplesmente aquele a quem nós colocamos a culpa pela nossa própria incompetência - estamos todos na merda por razões várias, mas alguém tem que ser responsabilizado. Que seja aquele que insiste em se afirmar inocente (ou não menos culpado que os demais) e que tenta seguir em frente.Nós, os vilões.
Nós todos que não aceitamos, não nos conformamos, que fizemos justiça com nós mesmos e dissemos: eu fiz o que podia. Essas cicatrizes, esse sorriso doentio fazem parte do que eu sou agora. Do que eu vou ser. Mas eu não vou ficar choramingando no meio da rua. Eu vou seguir com isso.
No fundo, o vilão é aquele que não está esperando a chegada de mocinho(a) nenhum. O vilão escolheu ser ajudado, não resgatado: sozinho no silêncio do quarto, ele não espera mais a espada salvadora de ninguém. Transformou a torre do exílio em laboratório, em centro de comando. Porque o vilão sabe que além do horizonte não há mocinho nenhum. O futuro não traz nada com frete grátis, e o vilão sabe disso. Mais do que isso, o vilão aceitou que as cicatrizes são para sempre, que o exílio é eterno e, perdido por um, escolheu perder-se por mil. E o vilão o é porque a gente insiste em só ver o que ele conquistou, e esquece que foi lutado, que foi suado - não é porque o vilão não sofre mais que ele nunca sofreu. Ainda são cicatrizes, ainda é exílio. Mas ele teve a ousadia de gritar: "Ainda estou vivo!"
Se no final ninguém tem escolha sobre muita coisa, o vilão é aquele que entende que essa aparente falta de liberdade é que o faz livre.
Isso parece loucura. Isso é tão instigante, tão excitante, que só pode ser errado. Só pode ser vilania.
Pois bem: somos nós, os vilões.
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| "Você já dançou com o demônio à luz do luar?" |



2 Participações externas:
Um viva a nós vilões, que estamos ai com a cara pra bater...
"O bandido e o mocinho
São os dois do mesmo ninho
Correm nos estreitos trilhos
Lá no morro dos aflitos
Na Favela do Esqueleto
São filhos do primo pobre
A parcela do silêncio
Que encobre todos os gritos
E vão caminhando juntos
O mocinho e o bandido
De revólver de brinquedo
Porque ainda são meninos"
Engraçado, tenho andado com essa música na radiola da cabeça e vc escreve isso...
O mocinho é chato pra caramba. Viva o Marginal! Viva Hélio Oiticica! Viva Sérgio Sampaio!
Grande abraço!
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