Tudo sempre teve um ritmo claro, uma seqüência para acontecer, uma hierarquia quase divina a ser respeitada. Primeiro ele via. De longe, a atenção capturada por um movimento de cabelo, um pedaço de seio aparecendo, as laterais do quadril entre a camiseta e a calça jeans. Um sorriso. Fisgado, passava a acompanhar os movimentos à distância. De repente se percebia pensando muito nela, procurando-a com os olhos, desassossegado. Era a primeira fase, a paixonose. Durava aproximadamente uma semana, talvez duas sem medicação, e era logo substituída por outra.
Perceba que até aqui tudo era feito à uma certa "distância segura": o desejo era de antemão proibido (ainda que não fosse), incomunicável à pessoa desejada (mas não a todo o séquito de pessoas que o rodeiam). Sendo possível, havendo o alinhamento preciso dos astros do zodíaco, Ele se aproximaria dela. Ficariam próximos, cada vez mais próximos e Ele cada vez mais mudo na comunicação do desejo. Dependia mesmo dos astros, do misticismo, da magia para que algo acontecesse. Ou apenas da iniciativa dela. Geralmente toda essa carga do impossível se resolvia num gesto dele, dado apenas quando da certeza absoluta de que não receberia um "não" como resposta. Caso essa certeza absoluta não se apresentasse nunca, aquela carga erótica, elétrica transitando se tornava amizade. Era a terceira fase, a fase final: a amizade com tensão sexual que nunca seria resolvida (a contento). Eventualmente mesmo essa tensão se extinguiria e seria só uma amizade sólida de homem e mulher.
Mas os astros se alinhariam, e ele se declararia, certo (tanto quanto possível) de seu sucesso e esse sucesso efetivamente viria (ele havia lido de antemão todos os indícios!) num beijo sôfrego, árduo, balsâmico - como um gole d'água fresca para alguém que muito admirou um oásis, sem saber se era realidade ou miragem. A fase de paixão ainda se estenderia: alguns meses, talvez anos. Ele se esforçaria para esconder dela os defeitos, e ela, quase em retribuição gentil, faria o mesmo quanto aos seus. A paixão mais das vezes dependeria desse jogo de esconde-esconde para se manter. O fim do jogo nestes casos marca exatamente o fim da paixão: ou um dos dois se vê diante de um defeito inconciliável e vai embora ou, vistos os pés do pavão, aceita-os como preço pelas belas plumas. Se o caminho escolhido for o segundo, não o primeiro, é possível que o estado de paixão uma hora acabe (em ambos os caminhos acabará, em verdade) e ceda lugar a outro estado - o de amor. Palco maior da aceitação, do gosto pelo que o outro é (e não pelo que imagino e construo que o outro seja), o amor se estabelece. Coisa estranhamente confortável, como um sapato novo que enfim se conforma ao seu pé, depois de muitos calos.
E, confortável, o amor segue indefinido. Talvez, o conforto daqueles sapatos se torne uma sensação (triste) de não se estar calçando nada. Talvez vire indiferença. Talvez encha-nos os pacovás calçar por tanto tempo aqueles sapatos já inexpressivos, demodê. Não interessa mais. Já não há mais certezas no curso das coisas.
Acontece que daquela vez tudo aconteceu diferente. Deu tudo "errado" como nunca antes dera (bem, teve aquela outra vez lá, mas como acabou dando realmente errado - sem aspas - vamos deixar pra lá). Ela chegou de um passado longínquo, mas não esquecido. Chegou e ficou já perto demais, quebrou a distância, desdenhou dos astros e da magia, fez pouco caso de todas as etapas e rituais que ele tão bem conhecia e seguia. Ele experimentou pela primeira vez o beijo não (muito) sofrido, nem (tão) árduo, nem sedento. Por terra todos os planos, toda a contemplação distanciada, ele teve logo o beijo com gosto sutil de desejo novo, que é quase um misto de desejar e temer.
Quando a paixonose se deu, ela estava ali, perto, ouvindo-lhe os sussurros. Quando era paixonite, a mão dela já o ajudava a caminhar pela escuridão com muita certeza, muito firme. Quando a paixão entrou em campo os defeitos de um e outro já eram conhecidos - o jogo de esconde-esconde não se dera - e mesmo assim ela se estabeleceu. Todas as coisas fora de lugar, tudo fora de ordem, sem tempo, sem relógio, sem prateleiras, e o amor pode chegar a qualquer hora - "o que faremos com a casa toda desarrumada assim, santo deus?"
Ainda descabelado, ainda todo desarrumado, foi que encontrei com ele. Me contou esta história que agora conto a vocês. Na despedida, me confessou: "O problema é que estou muito feliz..." e antes de ir, como se me contasse um segredo ao pé do ouvido: "E nem sei com certeza se o amor já veio!"


1 Participações externas:
Carambaaaaaaaaaaa! Gostei!
Que inspiração, hein? ;)
Muito bom, mesmo!
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